quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Toucas e Cachecóis


Durante grande parte de minha vida morei na parte sul da cidade onde sempre fez muito frio. Minha mãe sempre me vestia com touca e blusa de lã e cuidados redobrados porque tive muitos problemas respiratórios quando pequenininha. Lembrando que minha mãe era Crocheteira e justamente seu produto com maior vendagem era a touca portanto eu tinha vááárias... Sou uma pessoa que cresceu em volta de redondas bochechas então quase tudo que eu coloco na cabeça deixa meu rosto ainda mais redondo, ao longo da vida fui aperfeiçoando os modelos de touca para que eu me sentisse bem, e quando pego amor em uma peça ela me acompanha por toda a vida. O destino das peças que não gosto é virar presente.
Os cachecóis entraram em minha vida já na fase adulta e por ser um ser bastante agitado me aqueço rapidamente, então desenvolvi um amor por tramas bem vazadas. Com o passar do tempo entrei na fase cores e quase todas as peças que passei a tricotar eram malhas coloridas, até a chegada das lãs bem grossas e eu me tornar uma compulsiva por golas e shrugs, mas aí já é um outro capítulo...

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Cresça e Apareça


O tempo foi passando e a lista dos meus interesses foi aumentando. Eu gostava de desenhar, colecionava bonecas de papel e aumentava o estoque de roupas desenhadas, aprendi a fazer pulseiras no tear, macramê e comecei a customizar roupas. Já era uma mocinha e entre escola, bicicleta e paquerinhas acabei aposentando as agulhas por um tempo. Até que comecei namorar um menino que me levou para conhecer sua avó Dona Hermínia, e no primeiro encontro ela estava fazendo tricô e fisgou meu coração. Perguntei se ela poderia me ensinar algum pontinho bem básico e plaft : estava eu capturada pela avó e pelas duas agulhas: PAIXÃO.
Muito grata Dona Hermínia, a senhora me deu uma alegria para o resto da vida !

A Independência


Quando eu tinha uns 6 anos, minha mãe proclamou a independência, se separou do meu pai e foi ser uma jovem mulher desquitada que usava calças compridas e trabalhava fora, ou seja: "meu ícone feminista". Virou vendedora em uma loja de roupas, trabalhava 12 horas e já não tinha mais tempo nem disposição para o artesanato. Tomei posse de alguns itens que sobraram de seu acervo. Agora com agulhas de verdade e alguns restos de lã e linha passei a fazer roupas malucas para minhas bonecas, Muita cor e poucas formas, na maioria das vezes eram círculos em que eu abria buracos para os braços das bonecas passarem, algumas saias, toucas e enfeites para os cabelos. Era divertido e despretensioso, minha cara... Me sentia orgulhosa por ser uma menininha crocheteira capaz de criar a moda de suas filhinhas.
Não precisava pedir roupinhas para ninguém, assim eu também era independente.

O Vestidinho Vermelho


Fui criança numa família grande, minhas duas avós costuravam, algumas tias também e minha mãe era crocheteira e tecelã profissional, então era comum que eu vestisse roupas artesanais, A colcha de minha cama era feita pela minha avó e nunca consegui me desapegar deste vestidinho vermelho que foi feito por minha mãe. Primeiro era meu vestido de passeio, foi vestindo ele que fui no cinema pela primeira vez assistir Tom e Jerry, depois passei a usar sempre que tinha vontade, para brincar ou mesmo para ir à casa de alguma tia, até o dia em que ele já não servia e virou roupa de uma boneca  de louça enorme que minha mãe guardava. Quando a boneca morreu guardei o vestido para uma quem sabe talvez futura filha que nunca veio, mas meu vestidinho vermelho ainda está comigo, quem sabe vire peça de museu ou enfeite o meu sarcófago.



Como tudo começou...


Nasci nos anos 70 do século 20, um tempo em que mulheres se casavam e ficavam em casa cuidando dos filhos e seus maridos trabalhavam para prover o sustento da família... Só que no caso da "minha família", o provedor machista queimava o sustento na farra e ainda não permitia que minha mãe trabalhasse para me alimentar. A solução que minha mãe arranjou foi o artesanato e foi confeccionando peças em crochet e tear que conseguiu bancar nosso sustento. Eu devia ter uns 4 anos de idade e ficava fascinada com todos aqueles fios coloridos e agulhas interessantes, mas minha mãe tinha medo que eu me ferisse com tantos objetos pontiagudos e não me deixava mexer naquelas coisinhas mágicas. Como eu sempre fui um ser incontrolável não tive dúvidas, mordi o cabo de um pente de plástico até que sua ponta ficasse semelhante a uma agulha de crochet e foi assim que comecei a dar meus primeiros pontos e laçadas.